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É infantilidade gostar de anime e mangá?

  • Foto do escritor: Ayumi Costa
    Ayumi Costa
  • 27 de dez. de 2025
  • 6 min de leitura
Akihabara, centro otaku no Japão. Fonte: ちひろとも
Akihabara, centro otaku no Japão. Fonte: ちひろとも

Estigma, identidade, saúde mental e o papel cultural do fandom otaku


Gostar de anime e mangá ainda é, para muitas pessoas, algo associado à infantilidade, imaturidade ou fuga da realidade. Apesar da enorme popularização dessas mídias nas últimas décadas, o estigma persiste — às vezes de forma explícita, outras vezes mais sutil, disfarçado de piada ou julgamento social. Mas o que a pesquisa acadêmica realmente diz sobre isso? Ser fã de anime e mangá é sinal de imaturidade emocional ou social? Ou estamos lidando com um preconceito cultural que ignora a complexidade dessas práticas?

Este texto propõe olhar para essa questão a partir de evidências empíricas, estudos psicológicos e análises socioculturais, articulando três dimensões centrais:


  1. Os estereótipos associados aos fãs de anime (otakus)

  2. A relação entre consumo de anime/mangá e saúde mental

  3. O contexto histórico e cultural que moldou a imagem do otaku no Japão e no Ocidente


O que significa ser “otaku”? Do estigma à identidade cultural


O termo otaku tem origens complexas. No Japão, ele não se refere apenas a fãs de anime e mangá, mas a pessoas profundamente interessadas — ou obsessivas — por qualquer nicho específico, como trens, tecnologia, ídolos pop ou história militar. No Ocidente, no entanto, o significado foi reduzido quase exclusivamente ao consumo de anime e mangá.


Historicamente, otaku carregou um peso negativo. Durante os anos 1980 e 1990 no Japão, a palavra foi associada a jovens socialmente isolados, desajustados e, em casos extremos, a comportamentos desviantes. Esse estigma foi amplificado após crimes de grande repercussão midiática, como o caso de Tsutomu Miyazaki em 1989, quando a mídia japonesa passou a sugerir — ainda que de forma implícita — uma relação entre consumo de anime/mangá, isolamento social e criminalidade.


É importante notar que essa associação não se baseava em evidências científicas robustas, mas em pânicos morais, exageros midiáticos e generalizações perigosas. A lógica implícita era uma “ladeira escorregadia”: gostar de anime levaria ao isolamento; o isolamento levaria a distúrbios psicológicos; e estes, à violência. Estudos posteriores mostraram que essa narrativa é profundamente falaciosa.


Com o tempo, a imagem do otaku foi se transformando. De figura marginalizada, ele passou a ser reinterpretado como um consumidor criativo, altamente especializado, com grande capacidade analítica e influência sobre mercados culturais. Essa reconfiguração é visível tanto na produção acadêmica quanto na própria indústria cultural japonesa, hoje promovida globalmente pelo programa governamental Cool Japan.


Otakus são infantis? O que dizem os estudos sobre estereótipos


Pesquisas conduzidas por Reysen (2016) e colaboradores nos Estados Unidos ajudam a desmontar algumas das ideias mais persistentes sobre fãs de anime. Ao investigar como não fãs percebem esse grupo, Kikuchi (1999) identificou um quadro mais ambivalente — e menos condenatório — do que o senso comum costuma sugerir.


Contrariando estereótipos antigos, os participantes não associaram fãs de anime a perversão sexual, falta de higiene, dependência dos pais ou ausência completa de vida social. Também não endossaram a ideia de que esses fãs seriam, em essência, infantis ou imaturos.


Por outro lado, certos estereótipos persistem. Fãs de anime ainda são frequentemente percebidos como:


  • Introvertidos

  • Socialmente desajeitados

  • Mais confortáveis em pequenos grupos

  • Fortemente identificados com hobbies intelectuais ou criativos


Curiosamente, essas características não configuram, por si só, desvio ou imaturidade. Elas se alinham muito mais a um perfil de introversão do que a uma incapacidade social. Os dados sugerem que fãs de anime tendem a ter círculos sociais menores, frequentemente organizados em torno de interesses compartilhados — o que está longe de significar ausência de vínculos ou isolamento patológico.


Ainda assim, o estigma se manifesta de forma clara nos outros quando se observa o chamado distanciamento social. Não fãs demonstram maior resistência em aceitar fãs de anime em posições de intimidade (como parceiros amorosos) ou poder simbólico (como cargos políticos), mesmo quando aceitam sua presença em contextos profissionais ou cotidianos. Isso revela que o preconceito não desapareceu; apenas se tornou mais sofisticado.


Estigma, pertencimento e saúde mental


A literatura psicológica é consistente ao mostrar que experiências de estigmatização estão associadas a piores desfechos em saúde mental, incluindo sintomas de ansiedade, depressão, redução da autoestima e do bem-estar subjetivo. Para fãs de anime, esse processo pode ocorrer de duas formas principais.


A primeira é a internalização do estigma: a pessoa passa a acreditar que seu interesse é vergonhoso, infantil ou socialmente inadequado. A segunda é a ocultação da identidade, quando o indivíduo esconde seus gostos para evitar julgamentos — estratégia que, paradoxalmente, pode aumentar o sofrimento psicológico e a sensação de isolamento.


Ao mesmo tempo, há um fator protetivo importante: a participação em comunidades de fãs. Estudos mostram que o pertencimento a fandoms pode mitigar os efeitos negativos do estigma, oferecendo apoio social, validação identitária e espaços de troca simbólica. Em outras palavras, o problema não é gostar de anime e mangá, mas sim o contexto social que desvaloriza esse interesse.


Anime, mangá e bem-estar psicológico: uma relação mais complexa do que parece


Pesquisas recentes, como o estudo de Hajek e König (2024) na Alemanha, mostram que a relação entre interesse em anime/mangá e saúde mental não é simples nem unidimensional. Um maior interesse pode estar associado, simultaneamente, a indicadores menos favoráveis (como solidão percebida) e a indicadores positivos (como maior alegria e bem-estar subjetivo).


Essa aparente contradição faz sentido quando consideramos o papel ambíguo da cultura fandom. Por um lado, o envolvimento excessivo e exclusivo com universos ficcionais pode, em alguns casos, reforçar o retraimento social — especialmente quando substitui completamente interações presenciais. Por outro, essas mesmas narrativas oferecem significado, conforto emocional, inspiração e pertencimento.


Yabuta e Sasaki (2020), analisando a experiência psicológica de assistir anime mostram que essa prática:


  • Regula o humor e reduz o estresse

  • Provoca catarse emocional

  • Estimula reflexão moral e existencial

  • Favorece empatia e crescimento pessoal


Importante destacar que essas experiências não são meramente escapistas. Embora o afastamento temporário da realidade exista, ele frequentemente cumpre uma função adaptativa, ajudando indivíduos a lidar com desafios emocionais reais. Uma análise funcional caso a caso seria necessária para tentar precisar o papel que essas experiências têm na vida de cada um.


Infantilidade ou resistência cultural?


Uma parte importante do debate sobre “infantilidade” precisa ser contextualizada culturalmente. No Japão, tanto a cultura kawaii quanto o universo otaku emergem em um cenário de forte pressão social: longas jornadas de trabalho, expectativas rígidas de carreira, casamento e produtividade.


Nesse contexto, o consumo de mangá, anime e produtos associados pode ser interpretado, de acordo com Hinton (2018), não como regressão infantil, mas como resistência simbólica a modelos de vida adulta percebidos como opressivos ou pouco atraentes, especialmente porque, após a crise dos anos 80/90, o modelo de trabalho autosacrificial japonês deixou de trazer os mesmos benefícios econômicos de outrora. O interesse por mundos ficcionais, personagens estilizados e narrativas alternativas oferece espaços de experimentação identitária que não encontram lugar na opressiva vida adulta normativa.


Visto sob essa lente, chamar esse fenômeno de infantilidade diz mais sobre os valores culturais dominantes em um determinado contexto, do que sobre uma característica inerente ao comportamento de consumir animes e mangás.


Então, gostar de anime e mangá é infantil?


À luz das evidências disponíveis, a resposta curta parece ser: não necessariamente. Gostar de anime e mangá não é, por si só, sinal de imaturidade emocional, social ou psicológica. Trata-se de uma prática cultural complexa, atravessada por estigmas históricos, disputas simbólicas e transformações sociais profundas.


Como qualquer interesse, ele pode assumir formas mais ou menos saudáveis, dependendo do contexto, da intensidade e da função que cumpre na vida da pessoa. Reduzi-lo a infantilidade é ignorar décadas de pesquisa, além de desconsiderar o papel legítimo da cultura popular na construção do bem-estar, da identidade e do sentido de pertencimento.


Talvez a pergunta mais produtiva não seja se gostar de anime é infantil, mas por que certos prazeres culturais são estigmatizados, e, independente da prática, qual a função que se engajar em um determinado interesse tem na vida da pessoa?


Nota: Esse texto foi escrito quase que totalmente pelo ChatGPT, eu fui me empolgando com os artigos e gastei tempo demais lendo e adicionando novos artigos à lista de referências (uma condição que eu chamo de "só-mais-um-artigo病".) Ou seja, selecionei e resumi artigos que achei relevantes mas a confecção do texto não é minha, só corrigi algumas imprecisões e adicionei referências que ele havia omitido. Eu costumo escrever os textos sozinha. Dependendo do engajamento e feedback, posso mudar a forma como crio conteúdos, então deixe um comentário se tiver alguma preferência! Referências


Hajek, A., & König, H.-H. (2024). Interest in anime and manga: relationship with (mental) health, social disconnectedness, social joy and subjective well-being. Journal of Public Health. https://doi.org/10.1007/s10389-024-02341-9

Hinton, P. (2018). Negotiating otaku: A social group, its social representations and the changing cultural context | Papers on Social Representations. Papers on Social Representations, 27(2), 2.1–2.20. https://psr.iscte-iul.pt/index.php/PSR/article/view/474

菊池 聡. (1999).「おたく」ステレオタイプと社会的スキルに関する分析, 日本教育心理学会総会発表論文集, 1999, 41 巻, 第41回総会発表論文集, p. 177-, 公開日 2017/03/30, Online ISSN 2424-1571, Print ISSN 2189-5538, https://doi.org/10.20587/pamjaep.41.0_177, https://www.jstage.jst.go.jp/article/pamjaep/41/0/41_177/_article/-char/jaŌtsuka Eiji, & Translated by Thomas Lamarre. (2013). An Unholy Alliance of Eisenstein and Disney: The Fascist Origins of Otaku Culture. Mechademia, 8, 251. https://doi.org/10.5749/mech.8.2013.0251

Reysen S, Plante CN, Roberts SE, Gerbasi KC, Mohebpour I, Gamboa A (2016) Pale and geeky: prevailing stereotypes of anime fans. Phoenix Papers 2:78–103

Sone, Y. (2014). Canted desire: Otaku performance in Japanese popular culture. Cultural Studies Review, 20(2), 196–222. https://search.informit.org/doi/10.3316/informit.712273775921819

藪田 拓哉, 佐々木 淳. (2020). アニメ視聴による心理学的体験の構造化, アニメーション研究, 21 巻, 2 号, p. 25-35, 公開日 2021/11/06, Online ISSN 2435-1989, Print ISSN 1347-300X, https://doi.org/10.34370/jjas.21.2_25, https://www.jstage.jst.go.jp/article/jjas/21/2/21_210203/_article/-char/ja


 
 
 

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