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O Estigma das Doenças Mentais no Japão

  • Foto do escritor: Ayumi Costa
    Ayumi Costa
  • 20 de jan.
  • 5 min de leitura

Atualizado: 14 de abr.



Ouça o post em áudio:



皆さんこんにちは、こんにちは。


No Japão, o número de pessoas diagnosticadas com transtornos mentais está crescendo, enquanto as hospitalizações psiquiátricas diminuem. Para o Health and Global Policy Institute (HGPI), isso reflete um maior reconhecimento da importância da saúde mental, embora as formas de cuidado no país ainda enfrentem críticas da comunidade internacional. Historicamente, há mesmo um passado de intensa institucionalização e negligência, o que torna o avanço nesse campo especialmente significativo.

Entretanto, o estigma que permeia questões de saúde mental continua sendo um obstáculo imenso para sociedade japonesa. Apesar do aumento dos pedidos de pensão relacionados a diagnósticos psiquiátricos (年金, nenkin), muitas pessoas ainda hesitam em buscar ajuda. Um estudo de 2018 revelou que 80% das pessoas diagnosticadas com transtornos pelo DSM-IV em 2017 não haviam recebido atendimento de saúde mental. Esse dado reflete como o tabu e a discriminação podem tornar o sofrimento mental no Japão uma experiência isolante.


Uma breve história do sofrimento mental no Japão


No período anterior à Era Meiji, pessoas que hoje se diriam doentes mentais eram vistas como possuidoras de habilidades especiais chamadas タフレ (tafure). Já mais adiante, no Séc. XI, a filha do imperador Go-Sanjo, passando por alguma forma de sofrimento psicológico significativo, declarou-se curada após beber das águas do templo Daiunji em Kyoto. Isso espalhou pelo país o costume de buscar a cura para aflições mentais através da purificação pela água. Rezas místicas budistas e ervas chinesas eram outros tratamentos populares


Contudo, a modernização trouxe mudanças drásticas. Com a construção dos primeiros hospitais psiquiátricos na Era Meiji, surgiram leis que obrigavam famílias a confinar pessoas com transtornos mentais que não estivessem internadas em hospitais em "quartos de confinamento" (座敷牢, zashikirou). Essa prática continuou mesmo após a Segunda Guerra Mundial, reforçando a separação dessas pessoas do restante da sociedade.


O isolamento alimentou o estigma, já que a maioria dos japoneses tinha pouco contato com quem era diagnosticado com algum transtorno mental. Soma-se a isso a cultura de 本音と建前 (honne to tatemae, uma forte distinção entre sentimentos verdadeiros e atitudes públicas declaradas), que desencoraja discussões abertas sobre o tema, além da constante (embora imprecisa) associação midiática entre transtornos mentais e criminalidade.


Percepções e crenças que perpetuam o estigma


Pesquisas mostram que muitos japoneses ainda atribuem o sofrimento mental a fatores como "a forma como a pessoa foi criada" ou apenas "mau caráter". Outras pessoas pensavam que possíveis causas poderiam ser estresse, fraqueza pessoal ou problemas interpessoais. Embora a segunda visão tenda a reduzir a culpabilização, elas ainda reforçam a ideia de que o problema é produto de uma falha individual. Outras crenças, como a percepção de que pessoas com transtornos mentais são perigosas, também aumentam o distanciamento social.


Estudos indicam que a aceitação de explicações biogenéticas, como por exemplo pensar que alguém tem depressão por conta de um desequilíbrio bioquímico ou apenas por características herdadas geneticamente, embora ajude a validar em parte a experiência de sofrimento, pode reforçar a ideia de que essas condições são permanentes e aumentar o medo. Por exemplo, 56% dos participantes de uma pesquisa de 2013 acreditavam que pessoas com esquizofrenia poderiam ser perigosas para crianças, e apenas 5% acreditavam na recuperação completa por meio de ajuda profissional.


O que vem mudando?


De fato há muito que ainda precisa mudar, ao mesmo tempo, há avanços. Mais de 80% dos participantes de um estudo de 2018 acreditavam que pessoas diagnosticadas com transtornos como depressão e esquizofrenia podem ser tratadas e curadas. Os autores sugerem que a percepção e o conhecimento sobre doenças mentais aumentaram nos últimos 20 anos, e que o aumento da familiaridade por meio de artigos e programas de TV pode estar diminuindo o sentimento de rejeição. 


Houve também tentativas simbólicas como a troca do nome da esquizofrenia de "doença da mente repartida" para "doença de integração" (精神分裂症, seishin bunretsu byo para 統合失調症, togouchichoushou), visando reduzir estigma. Além disso, a normalização da busca por terapia têm encorajado mais pessoas a procurar ajuda.


O que ainda pode ser feito?


Pesquisas apontam que experiências positivas com serviços de saúde mental entre amigos ou familiares são fatores decisivos para encorajar a busca por algum tipo de cuidado. Além disso, iniciativas que enfatizam que problemas de saúde mental não são fraqueza pessoal, combinadas com programas educacionais, podem ajudar a reduzir a ignorância e a discriminação.


Manter laços sociais fortes e desenvolver confiança dentro das comunidades também são estratégias eficazes para diminuir o estigma. Ao se abrir para discussões sobre saúde mental, a sociedade japonesa pode caminhar para um futuro onde o cuidado com o bem-estar emocional seja mais acessível e menos tabu, coisa que tem de fato acontecido.


Finalmente, se você ou alguém que conhece está enfrentando dificuldades relacionadas à saúde mental, procure apoio — falar sobre o que está passando com pessoas próximas de confiança ou com algum profissional, se for uma possibilidade, pode ser um primeiro passo importante. Buscar ajuda não é sinal de fraqueza, mas de força.


お疲れ様です。


では、またこんど、お大事になさってください。


Referências


ANDO, S. et al. Review of mental-health-related stigma in Japan. Psychiatry and Clinical Neurosciences, v. 67, n. 7, p. 471–482, 30 set. 2013.

[HGPI Policy Column] (No.41) — From the Mental Health Project “Mental Health Policy in Japan — History and Future Policy Topics (Part 1 of HGPI Activities for Mental Health and Domestic Policy History)” | Health and Global Policy Institute. Disponível em: <https://hgpi.org/en/lecture/column-41.html>.

‌INA, M.; MORITA, M. Japanese university students’ stigma and attitudes toward seeking professional psychological help. Online Journal of Japanese Clinical Psychology, v. 2, p. 10–18, 2015.

ISHIKAWA, H.; KAWAKAMI, N.; KESSLER, R. C. Lifetime and 12-month prevalence, severity and unmet need for treatment of common mental disorders in Japan: results from the final dataset of World Mental Health Japan Survey. Epidemiology and Psychiatric Sciences, v. 25, n. 03, p. 217–229, 7 jul. 2015.

‌KASAHARA-KIRITANI, M. et al. Public perceptions toward mental illness in Japan. Asian Journal of Psychiatry, v. 35, p. 55–60, jun. 2018.

KIDO, Y. et al. Social Capital and Stigma Toward People with Mental Illness in Tokyo, Japan. Community Mental Health Journal, v. 49, n. 2, p. 243–247, 29 set. 2012.

YOSHIOKA, K. et al. Associations between Beliefs about the Causes of Mental Disorders and Stigmatizing Attitudes: Results of a Mental Health Literacy and Stigma Survey of the Japanese Public. International Journal of Mental Health, v. 45, n. 3, p. 183–192, 2 jul. 2016.

宮沢 和志. 精神障害者に対する差別・偏見を軽減するために歴史を伝えることは有効か : 精神保健福祉行政史を伝えることの有効性をアンケート調査から考察する. 金城学院大学論集. 社会科学編 / 金城学院大学論集委員会 編. 9(2), p.102-125. 2013.


 
 
 

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