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Simpósio Internacional do CIATE – 130 Anos de Amizade Brasil-Japão: Situação dos Trabalhadores Nikkeis no Japão na Era das Mudanças Sociais

  • Foto do escritor: Ayumi Costa
    Ayumi Costa
  • 10 de dez. de 2025
  • 6 min de leitura

O CIATE realizou um simpósio internacional reunindo especialistas para discutir temas ligados à vida de brasileiros no Japão — em especial saúde mental, educação, trabalho, direitos, envelhecimento e desafios das famílias migrantes. A seguir, compartilho os principais pontos apresentados nas diferentes mesas e debates.


Adultos e Crianças Brasileiros no Japão com Problemas de Saúde Mental


Dr. Kenji J. Tsuchiya apresentou três casos clínicos que ilustram questões que vêm aparecendo com frequência entre crianças e jovens brasileiros no Japão. Entre as queixas, surgem afastamento escolar, dificuldades acadêmicas e exposição a conflitos familiares. Em alguns casos, mães ou pais também apresentam demandas psiquiátricas ou outras questões de saúde. Muitas dessas crianças acabam recebendo diagnósticos como TEA e TDAH.


Um ponto recorrente é a dificuldade de comunicação. Em um dos casos citados, o pai falava espanhol, a mãe português e a interlocução com o médico só acontecia em inglês. Esse tipo de situação contribui para o isolamento linguístico das crianças, que passam por mudanças bruscas e, ao mesmo tempo, têm pouco acesso a serviços adequados de saúde mental. Além disso, ainda há resistência de parte da população japonesa à criação de políticas de apoio para filhos de estrangeiros, sob o argumento de que recursos públicos não deveriam ser direcionados a essa população.


O Dr. Tsuchiya também mencionou a falta de compreensão sobre o fenômeno futoko. Entre os problemas observados especificamente em famílias brasileiras, aparecem comportamentos agressivos de homens, pouca valorização da educação infantil e situações de nikkeis envelhecendo sem apoio familiar.


Em relação às tendências demográficas, apontou que brasileiros mais jovens tendem a retornar ao Brasil, enquanto pessoas com mais de 40 anos têm optado por permanecer no Japão.


Debate com Dra. Kyoko Nakagawa e Dr. Masato Ninomiya


A Dra. Kyoko Nakagawa, do Projeto Kaeru, relatou que crianças filhas de dekasseguis que retornam ao Brasil apresentam desafios semelhantes aos observados no Japão: agressões no lar, negligência e bullying. Ela destacou diferenças importantes entre a atuação dos Conselhos Tutelares e da polícia no Brasil e no Japão. Enquanto o ECA garante maior proteção às crianças no Brasil, no Japão denúncias feitas pela escola podem levar ao afastamento imediato da criança do convívio familiar, dependendo da avaliação da equipe responsável.


Segundo a Dra. Nakagawa, pais e adolescentes frequentemente apresentam quadros de depressão, ansiedade e distimia. As crianças, por sua vez, muitas vezes se encontram em uma zona limítrofe em vários indicadores e acabam recebendo diagnósticos como TEA ou TDAH, sendo direcionadas para as chamadas “salas especiais”. Ela questiona se esses diagnósticos são sempre adequados e destaca a importância de refletir sobre como apoiar melhor o desenvolvimento infantil.


De acordo com a Dra., crianças em processo migratório costumam vivenciar isolamento social, conflitos de identidade e dificuldades para construir um senso de pertencimento. Não é raro ouvirem relatos de jovens que expressam desejo de “sumir por um tempo”, recorrendo à ingestão de medicamentos — e isso nem sempre está diretamente ligado à intenção suicida.


A Dra. Nakagawa também chama atenção para o impacto das habilidades linguísticas no desempenho cognitivo, especialmente em avaliações como o WISC. Quando uma criança não alcança o bilinguismo pleno e apresenta dificuldades nos dois idiomas, esse desempenho pode ser prejudicado. Com o aumento da demanda de outras populações estrangeiras (especialmente do sudeste asiático), o apoio voltado aos brasileiros diminuiu, embora os desafios permaneçam.


Ela comentou ainda a cultura escolar japonesa de dizer a alunos com dificuldades de frequência que “se não quiser vir, não precisa”, e lembrou o caso de uma jovem brasileira que desejava frequentar a escola, mas não conseguia entrar na sala por medo. No Brasil, por outro lado, o ensino é obrigatório, o que contribui para que as crianças concluam a escolaridade mesmo com obstáculos.


Ao meu ver, pode ser que isso se relacione ao que já vimos no blog anteriormente sobre as futoko: em meio à um aumento de casos de afastamento escolar e suicídios entre jovens, recomendações japonesas costumam evitar forçar a presença escolar e sugerir abordagens menos coercitivas que a lógica do gamansuru e gambaru, priorizando a ideia de murishinai ("não se esforçar além do possível”). No entanto, quando essa orientação é aplicada a crianças estrangeiras já em situação de vulnerabilidade e isolamento, pode acabar reforçando a segregação e contribuindo para que permaneçam afastadas da escola, como diz a Dra.


Situação de Trabalhadores Brasileiros no Japão e Política de Apoio


Sr. Hideki Ando, do Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar do Japão, apresentou um panorama sobre trabalhadores estrangeiros. O número total vem crescendo, embora o de nikkeis e sanseis oscile. Brasileiros são atualmente o sexto maior grupo de trabalhadores estrangeiros no país.


Ele destacou que muitos brasileiros entram no Japão devido à descendência, o que lhes garante um visto flexível e sem restrições de ocupação, ao contrário de outros vistos de trabalho. Apesar do estereótipo associado ao termo dekassegui — indicando deslocamento motivado pelo ganho financeiro — dados mostram que brasileiros nem sempre optam pelas indústrias que pagam mais.


De acordo com Sr. Ando, as ocupações mais valorizadas em geral exigem capacitação técnica e conhecimento do idioma. Falar japonês funciona como fator de proteção em crises econômicas, permitindo acesso a mais oportunidades, como no setor de serviços.


O Sr. Ando também comentou a ampliação do visto Working Holiday para o Brasil, com o objetivo de atrair jovens, incentivar o aprendizado da língua e avaliar se se adaptariam à vida no país. Reforçou que o nível exigido atualmente (JLPT N4) é considerado muito baixo.


Rigor da Fiscalização em 2026 na Contribuição Previdenciária – Shakai Hoken


Sra. Erika Tamura, do SABJA, disse que, embora sua palestra fosse sobre Shakai Hoken, a maior demanda atual da instituição é por orientação psicológica. Ela detalhou dificuldades enfrentadas por brasileiros em relação aos sistemas de seguro-saúde e aposentadoria no Japão. Como o tema é complexo e pode ter impacto significativo na vida dos trabalhadores, recomendo que interessados procurem o SABJA para esclarecimentos. Como este post se concentra em temas psicológicos ligados à experiência migratória, não detalharei o conteúdo técnico da palestra aqui.


Casos Jurídicos de Brasileiros no Japão


A Dra. Marcia Regina Arai Tavares Koshiba, advogada internacional, apresentou casos jurídicos envolvendo brasileiros, incluindo situações civis irregulares que impedem atendimento adequado tanto no Japão quanto no Brasil.


Ela destacou o aumento de crianças retiradas de seus lares pelo Jidou Soudan, órgão equivalente a um conselho tutelar japonês, principalmente por motivos de violência ou suspeita de negligência.


Relatou também situações complexas envolvendo mulheres brasileiras vítimas de violência doméstica. Muitas hesitam em buscar abrigo por terem o visto atrelado ao cônjuge. Outro ponto grave diz respeito à subtração parental: crianças passam a ter residência habitual no país onde permanecerem por 1 ano e 1 dia, e um dos pais pode solicitar a devolução ao país de origem mesmo quando a mudança ocorreu para proteção contra violência. Para alegar violência nesse contexto, é necessário que o caso esteja transitado em julgado.


A Dra. Koshiba mencionou ainda casos criminais envolvendo brasileiros atuando como “mulas” de drogas e que acabam presos no Japão. Em relação à violência doméstica, por não existir no Japão legislação semelhante à Lei Maria da Penha — nem mecanismos para lidar especificamente com violência psicológica — a orientação é procurar um abrigo, já que no Japão o agressor não é obrigado a deixar o lar.


Importância do Idioma Japonês para Decasséguis


A palestra de Christian Tamura e Giovana Cristiano, professores de japonês, concentrou-se em recomendações de estudo do idioma. No debate seguinte, a Sra. Satomi Sasaki, superintendente do CIATE, comentou a previsão de que os critérios para reconhecimento de escolas de japonês no Japão devem se tornar mais rígidos. Atualmente, mesmo com escolas com baixa qualidade de ensino ofertando cursos, apenas um terço das instituições candidatas é aprovado.


Até o ano que vem!


O evento também contou com outras apresentações relevantes, como a do Dr. Alberto Matsumoto, que falou sobre o sistema de intercâmbio Working Holiday, mas de novo, não vou detalhá-la por não ter tanta relação com o tema do blog!


Destaco que o simpósio trouxe reflexões valiosas sobre os desafios enfrentados por trabalhadores brasileiros no Japão. Pretendo participar novamente no próximo ano, e recomendo que quem tiver interesse acompanhe as redes sociais do CIATE. O evento oferece tradução simultânea em português e japonês e é uma oportunidade importante para compreender melhor a realidade migratória entre os dois países.

 
 
 

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