top of page
Buscar

Saúde Mental de Dekasseguis no Japão

  • Foto do escritor: Ayumi Costa
    Ayumi Costa
  • 9 de jan.
  • 4 min de leitura

Atualizado: 21 de abr.


ree

Versão em áudio:




Como fica a saúde mental de quem deixa o Brasil para trabalhar no outro lado do mundo? Essa é a realidade de dekasseguis, palavra que vem do japonês 出稼ぎ e significa algo como “sair para ganhar dinheiro”. O termo refere-se a quem deixa o Brasil em busca de oportunidades melhores no Japão, geralmente assumindo empregos que japoneses costumam evitar, os chamados "3K", 汚い (kitanai, sujo)、危険 (kiken, perigoso) e きつい (kitsui, penoso).


Esse movimento começou legalmente a partir de 1991, e hoje, passados mais de 30 anos, vemos que certas coisas no contexto de dekasseguis continuam as mesmas, ao passo que outras mudaram bastante, seja no sentido de criarem facilidades ou dificuldades. Se você é dekassegui, vamos começar reconhecendo que você está encarando um baita desafio e muitas das pressões que você enfrenta são estruturais e dependem de movimentos sistêmicos para serem transformadas! Nesse texto, queremos fazer um panorama do que trabalhadores como você enfrentam ao fazer essa viagem, para então falar sobre como potencialmente buscar cuidar de si diante dessas complexidades.

Vamos começar com o que não parece ter mudado muito:


Por que ir para Japão? Na maioria das vezes, o motivo principal é financeiro. Muitos vão pra poupar, mandar dinheiro pra família ou até realizar o sonho de abrir um negócio. Há ainda quem vá motivado pela busca de uma condição de vida melhor, querendo segurança e maior poder de compra.


Dito isso, há desafios. O idioma é uma barreira enorme para muitos, e sem falar bem japonês, fica difícil se conectar de verdade com a comunidade local. O ritmo de trabalho é pesado e as jornadas são longas, o que deixa pouco tempo pra fazer outras coisas fora do serviço. Além disso, as condições de emprego às vezes são precárias, com falta de acesso a benefícios e segurança trabalhista. Como se isso não bastasse, tem o peso da discriminação por parte de alguns japoneses. Tudo isso pode trazer uma sensação de solidão, e muitos dekasseguis se sentem "no meio do caminho", sem se encaixar totalmente nem no Brasil, nem no Japão. Isso pode pesar emocionalmente, ainda mais pra quem viaja sozinho ou tem dificuldade na hora de formar amizades fora do trabalho.


Então nós temos uma situação em que há uma forte motivação para encarar o desafio de migrar e trabalhar como dekassegui, e, ao mesmo tempo, várias pressões que podem colocar seu sonho em risco. Já vamos falar sobre como isso afeta você, mas antes, o que é que tem mudado?


Maior força da comunidade brasileira. Se no passado a intenção de muitos era ser empresário no Brasil, atualmente tem dekasseguis conseguindo abrir negócios no próprio nihon, já que a burocracia é menor. Dessa forma, o mercado brasileiro no Japão está crescendo, com restaurantes, lojas e serviços pra atender a comunidade. Outro ponto é que a segunda geração, os filhos dos primeiros trabalhadores já está rompendo barreiras, ocupando cargos que antes pareciam inalcançáveis aos seus pais.


Mas, nem tudo são flores. Para contornar o preconceito, há até quem mude o nome. Especialmente na hora de alugar um apartamento ou conseguir um emprego, a rejeição sistemática por conta de um nome estrangeiro ainda é uma triste realidade. Outro desafio é a geração de trabalhadores que envelhece no Japão sem acesso a previdência, entre muitos outros desenvolvimentos desafiadores. A segunda geração, a que nasce e cresce no Japão, tem outros problemas: alega enfrentar problemas familiares e ansiedades em relação à sua integração e seu futuro no país.


Como lidar com o sofrimento que emerge? Não podemos negar, não tem exercício ou remédio que substitua a ação coletiva para mudanças sociais! Dito isso, manter-se conectado com o que te motivou a passar por essa experiência em primeiro lugar é importante. E se de repente essa motivação mudou (o que seria ok!), é importante olhar pra isso também. E, mesmo assim, cuidar de si é fundamental, seja para para participar da mudança ou apenas para sobreviver mais um dia.


Diagnósticos como depressão, síndrome do pânico, distúrbios de aprendizagem e transtorno bipolar são alguns daqueles que dekasseguis têm recebido. Independente do nome dado ao seu sofrimento, acho que isso indica que muitos estão penando de forma significativa, a ponto de pôr em risco todo o seu trabalho duro!


Se as coisas começarem a pesar, lembre-se: você não está sozinho! Hoje em dia, dá pra encontrar serviços de apoio psicológico, tanto locais quanto online. Há cada vez mais apoio especializado a trabalhadores no Japão, e há serviços gratuitos de curta duração que você pode acessar através de algumas organizações (como a ABC Japan).


Há muitos temas que ainda podemos tratar por aqui: dificuldades de dekasseguis que retornam, o estigma pesadíssimo que tem o sofrimento mental no Japão, aspectos culturais que podem trazer sofrimento e que não são tratados no ocidente... E aí, tem algo que você gostaria de compartilhar ou sugerir? Talvez compartilhar experiência? Deixa um comentário abaixo, e vamos continuar essa conversa.


よろしくお願い致します。(Yoroshiku onegai itashimasu.)



Referências


BELTRÃO, K. I.; SUGAHARA, S.. Permanentemente temporário: dekasseguis brasileiros no Japão. Revista Brasileira de Estudos de População, v. 23, n. 1, p. 61–85, jan. 2006. 

EQUIPE INFOMONEY. Cuidados que o dekassegui deve ter com a saúde mental durante a estadia no Japão. Disponível em: <https://www.infomoney.com.br/minhas-financas/cuidados-que-o-dekassegui-deve-ter-com-a-saude-mental-durante-a-estadia-no-japao/>. Acesso em: 9 jan. 2025.

FLEURY, F. Imigração brasileira para o Japão volta a crescer após dez anos. Disponível em: <https://noticias.r7.com/internacional/imigracao-brasileira-para-o-japao-volta-a-crescer-apos-dez-anos-26082018/>. Acesso em: 9 jan. 2025.

KAMATA, F. Filhos de brasileiros no Japão começam a superar barreiras no mercado de trabalho qualificado - BBC News Brasil. BBC News Brasil, 9 jun. 2019.

KAMATA, F. Os brasileiros que mudam de nome no Japão para evitar preconceito. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/articles/c3grjxgw2y1o>. Acesso em: 9 jan. 2025.

MIYASAKI, G. M. 静岡県浜松市の在日ブラジル人第2世代のメンタルヘルスをめぐって. 修士論文—静岡文化芸術大学大学院文化政策研究科: 2021.

RODRIGUES, J. Brasileiros no Japão trabalham 12h/dia, mas dizem que segurança e qualidade de vida compensam. Disponível em: <https://www.terra.com.br/noticias/educacao/carreira/brasileiros-no-japao-trabalham-12hdia-mas-dizem-que-seguranca-e-qualidade-de-vida-compensam,df5932e9d5438629292ed44d600c2900lvpsdx3w.html?utm_source=clipboard>. Acesso em: 9 jan. 2025.

Imigração brasileira no Japão. In: WIKIPÉDIA: a enciclopédia livre. Wikimedia, 2025. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Imigra%C3%A7%C3%A3o_brasileira_no_Jap%C3%A3o>. Acesso em: 9 jan. 2025.


cedric georgeさんによる写真: https://www.pexels.com/ja-jp/photo/22800058/


 
 
 

Comentários


bottom of page