Racismo no Japão: japoneses são racistas? (sim, a resposta é sim)
- Ayumi Costa
- 19 de nov.
- 11 min de leitura

Michael Sharpe, pesquisador associado à Columbia University cuja área de expertise são relações internacionais de migração, incorporação política de imigrantes e transnacionalismo, diz que o Japão, até por conta de suas questões com o envelhecimento da população, vem se estabelecendo como um país de imigração e diz que “dependendo de como a imigração for enquadrada, gerida e os direitos forem concretizados no Japão, o país poderá tornar-se um modelo de aceitação e inclusão democrática ou um exemplo de intolerância e exclusão iliberal para a região e para o mundo.”
De acordo com Michael, o racismo no Japão é tão pronunciado como em países no Ocidente. Ele apenas se manifesta de forma um pouco diferente. Por exemplo, os povos indígenas como Ainus e os Okinawanos e minorias como os Burakumin são discriminados desde antes do século XVII. Inclusive, a ideia de que o Japão seria um país etnicamente homogêneo foi algo construído a partir da Restauração Meiji no século XIX, quando da formação do seu Estado moderno, como uma forma de gerar uma coesão nacionalista. Com a expansão do império japonês, isso se desenvolveria em uma forma de hierarquização que colocava o suposto “povo japonês” no topo, apagando a sua heterogeneidade.
Ainda segundo Sharpe, a arte japonesa antiga já revelava uma preferência pela pele clara, associando a cor mais escura ao trabalho no campo. Isso é perceptível na quantidade de produtos e tratamentos de beleza visando o clareamento de pele no país. Mais recentemente, a marca Nissin foi centro de uma polêmica envolvendo a tenista nipo-haitiana-americana Naomi Osaka, que teve sua pele e cabelos clareados em sua versão animada veiculada pela companhia. A marca acabou se desculpando. Um outro exemplo é o tratamento dado a Bobby Ologum, nigeriano naturalizado japonês pela televisão japonesa. Ele fazia contraste com Thane Camus, um americano branco, ao fazer uma personagem confusa e frequentemente inferiorizada no The English Language School do Karakuri TV.

Michael nota que alguns afro-americanos relatam se sentirem muito mais livres no Japão que nos Estados Unidos. Ele mesmo, como homem negro, diz experimentar graus de liberdade e privilégio que não viveu nos Estados Unidos ou na Europa. Ao mesmo tempo, dados da primeira pesquisa de discriminação racial e étnica no pais incluiu relatos de insultos, discriminação no emprego, recrutamento exclusivo e recusa em aluguéis que Michael também identifica. Mesmo indivíduos supostamente celebrados pela cultura pop japonesa ainda enfrentam discriminação: a recente coroação de Ariana Miyamoto, uma Miss Universo japonesa e afro-americana, ao mesmo tempo que demonstra uma mudança na auto-imagem do Japão, foi alvo de reações negativas na internet.
A ingenuidade é um argumento frequentemente usado no Japão para negar o racismo, alegando que nunca tiveram escravos em seus territórios ou uma população negra significativa. Michael nota que africanos estiveram no Japão desde o século XVI, trazidos como servos pelos europeus (há também o caso de Yasuke, que alcançou o status de samurai), e ele conclui que a doutrina da supremacia branca, embora com nuances, existe no Japão assim como em todo o mundo.
Yoshitaka Lawrence Shimoji, sociólogo hafu especializado em raça, migração e desigualdade social, diz que no período do assassinato de George Floyd e o ressurgimento do movimento Black Lives Matter as redes sociais japonesas foram inundadas por frases como “não existe racismo no Japão” e “o racismo no Japão é difícil de perceber”. Ele também menciona o Relatório sobre a Realidade da Discriminação Racial no Japão e tenta explicar porquê, apesar de evidências tão claras, muitas pessoas ainda acreditam que “não existe discriminação racial” no Japão: isso tem a ver com três problemas em sua história política.
Primeiro, a posição oficial do governo japonês ainda nega a existência de discriminação racial. Apesar das recomendações das Nações Unidas e de outros países para a adoção de medidas adequadas contra a discriminação racial, o governo japonês declarou que “não reconhece que a situação atual do Japão seja uma em que atos discriminatórios não possam ser efetivamente contidos pelo sistema jurídico existente e em que atos discriminatórios raciais explícitos (...) sejam praticados. Portanto, a penalização desses atos não é considerada necessária.” Mesmo que os governos locais destaquem a realidade da discriminação em seus municípios, a atitude de negação completa do governo federal influencia fortemente a percepção geral da sociedade sobre a existência — ou ausência — de racismo no Japão.
Segundo, a forma como o governo japonês realiza seu censo, registrando apenas a nacionalidade e não a origem étnica e racial, como é o caso dos Estados Unidos, Reino Unido e Brasil, acaba reforçando a ideia de que a categoria “japonês” se refere a um único grupo étnico. No entanto, se considerássemos a composição racial e étnica desses japoneses, seria possível constatar que ela é muito mais complexa. Esse apagamento leva à ideia de que "o Japão não é racialmente diverso, logo, o racismo não existe" (ou que “japoneses não são racistas, são xenófobos”, algo que já ouvi no Brasil).
A terceira questão tem justamente a ver com o “mito da etnia única” propagado por políticos japoneses e já mencionado por Sharpe. Aqueles em posições de poder político têm afirmado continuamente que os japoneses são um grupo monoétnico. Esse mito da homogeneidade racial e étnica é usado para justificar a ideia de que o racismo nunca ocorreu no Japão.
Como a Teoria das Molduras Relacionais (RFT) e a ACT compreendem o Racismo
O racismo estrutural é um conjunto de práticas que permeia as relações sociais e é produto de estruturas políticas, econômicas, jurídicas e familiares. Nele processos em indivíduos e instituições se produzem em uma sociedade cujo racismo é regra, e não exceção (Ribeiro, Santos & Vasconcelos, 2023).
No Brasil, como em muitos lugares do mundo, a escravidão foi sustentada por uma série de argumentos que tinham como base a afirmação da superioridade do povo branco. Atualmente, a ausência de políticas reparatórias para a escravidão resulta num contexto em que a população negra ainda é exposta a várias privações, na forma de dificuldade de acesso a recursos básicos, direitos e ascenção social; e punições, como violência policial, assédios e agressão verbal. De acordo com Ribeiro, Santos & Vasconcelos (2023), a piada racista é uma dessas agressões, que se reproduz a partir das relações simbólicas mantidas nessa cultura.
As autoras trazem a análise de Burdsey (2011, apud Ribeiro, Santos & Vasconcelos, 2023), que estudou piadas racistas dirigidas a jogadores de cricket anglo-indianos. Nela, os jogadores identificavam as falas racistas como “piadas” ou “brincadeiras” como estratégia para minimizar suas repercussões. Além disso, as minorias alvo das “piadas” se sentiam pressionadas a negar as microagressões que sofriam, se esquivando ou fugindo do confronto, quando não reforçando socialmente o agressor. Microagressões, aliás, podem ser definidas como falas que, independente da intenção, comunicam desprezos e insultos raciais destinados a pessoas não-brancas (uma piada racista seria portanto um tipo de microagressão racial).
Da mesma forma, uma pessoa negra que cresce ouvindo piadas e falas racistas cresce aprendendo a se descrever e comportar controlada por essas descrições, o que tem consequências bastante profundas para sua vida.
A RFT, ou Teoria das Molduras Relacionais, investiga sistemas como a linguagem e a cognição humana. Para ela, o comportamento verbal e simbólico é definido como respostas relacionais arbitrariamente aplicáveis a estímulos. Isso quer dizer que certos sons, como o que ouvimos ao falar “bola”, a palavra escrita BOLA e o objeto esférico normalmente relacionado aos estímulos anteriores, estabelecem uma série de relações arbitrárias que são evocadas quando falamos e pensamos. Mas o que isso tem a ver com racismo?
Assim como a nossa capacidade para a linguagem sustenta a relação entre o som, a palavra escrita e o objeto esférico mencionados anteriormente, considerar que uma pessoa negra é inferior e uma branca é superior baseando-se na cor da pele seria uma outra relação arbitrária, esta com consequências muito amplas na nossa cultura. As autoras trazem o seguinte exemplo: pense em um indivíduo que é exposto, ao longo da vida, por diversas situações que treina relações como “branco-luz”, “branco-paz”, “branco-bom” e como “preto-escuridão”, “preto-ruim” e “preto-maldade”. A RFT entende que dessas, alguém poderia derivar a relação (arbitrária) de que “todo o branco é bom e todo preto é ruim”.
Portanto, mesmo que a piada racista pareça inofensiva, ela reforça relações parecidas com as anteriores. Veja, por exemplo, outros exemplos trazidos pelas autoras: “preto igual carvão, feio que nem cão”, “brigou com o pente foi morena?”, “tinha que ser preto; a coisa tá que nem tu: preta”, “fez igual serviço de preto!”, etc. Uma pessoa negra exposta a múltiplos exemplares como esses pode passar a entender que essas falas se referem também a elu, ainda mais se levarmos em consideração que o self, para a Análise do Comportamento, é entendido como um conjunto de comportamentos ligados à descrição de si mesmo, e aprendido a partir da interação com a comunidade verbal.
Essa pessoa negra, quando crescida, mesmo tendo bom desempenho e sucesso, pode ficar insensível aos estímulos que evidenciam sua boa performance porque não estão de acordo com o que ela aprendeu a esperar de si mesma, devido ao longo treino de relações depreciativas ligadas ao seu self.
O sofrimento que nasce a partir dessas relações de linguagem compõe a compreensão ubíqua do sofrimento mental da Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT). Nascimento (2025) traça um paralelo entre essa perspectiva àquela de Frantz Fanon, autor fundamental nos estudos de relações raciais. Fanon argumentava que o racismo internalizado vinha da difamação e injustiça contínuas sofridas pela população negra, se expressando na forma de dúvida, confusão de identidade e sentimentos de inferioridade.
A ACT, com seus pressupostos antiessencialistas (ou seja, que negam a suposição de uma natureza essencial e imutável) podem ser úteis, de acordo com Nascimento (2025), para o enfraquecimento de algumas dessas regras culturais a partir das quais o racismo emerge.
A abordagem desenvolve ferramentas para que o indivíduo alcance alguma liberdade em relação à essas aprendizagens sociais, o que pode ser bastante interessante para indivíduos minorizados. O uso crítico delas pode facilitar novas relações e comportamentos transformativos, orientados por autocompaixão e autocuidado.
Nikkeis antirracistas desafiando o model minority myth
Michael Sharpe explica que o racismo, em todas as suas formas, é um sistema de poder, história e instituições que promove um grupo e degrada ou desvaloriza outro. Para ele, o uso do racismo na mídia pode ser sistematicamente denunciado e potencialmente desmantelado com reflexão, auto educação e organização. O racismo estrutural se evidencia, por exemplo, em práticas que tornam a educação não obrigatória para crianças estrangeiras, expondo crianças brasileiras e peruanas à evasão escolar, exploração laboral e criminalidade juvenil.
Shotaro Yoshida, aluno de PhD da Universidade de Tóquio, diz que apesar da discriminação contra coreanos, ainus e okinawanos no Japão ter sido reconhecida como discriminação racial, e uma lei mais abrangente contra a discriminação ter sido recomendada, essa realidade é frequentemente ignorada. Em sua opinião, em comparação com o Ocidente, o Japão ainda tem poucas iniciativas educacionais documentando suas histórias de discriminação e exclusão. Para ele, o pré-requisito para discussões significativas sobre diversidade no Japão é confrontar esse histórico e engajar-se com a diversidade já existente no Japão.
Yoshitaka Lawrence também crê que, para superar essa ficção, devemos aceitar que o Japão é racialmente diverso e reconhecer que os japoneses praticam discriminação contra estrangeiros e outros japoneses, e estabelecer leis e regulamentos que combatam a discriminação racial. De acordo com ele, devemos prestar atenção às experiências vividas por cada indivíduo e resistir à tentação de minimizar ou silenciar essas experiências.
Densho, uma ONG dedicada à preservação da história nipo-americana, diz que a ideia de asiático-americanos como uma “minoria modelo” remontam aos sistemas de escravidão e genocídio e aos ideais supremacistas brancos que participaram da história norte-americana. Ao focar em indicadores de “sucesso” selecionados a dedo, como renda, nível de escolaridade e baixos índices de criminalidade — enquanto ignora fatores sociais e econômicos mais profundos — o mito da minoria modelo atribui estereótipos aparentemente positivos aos asiático-americanos: bons em matemática, trabalhadores, não reclamam, etc.
Além de apagar as diversidades entre mais de 40 grupos étnicos que se enquadram no que seriam os “asiático-americanos”, é anti-negro e tem sido usado para desvalorizar comunidades negras e pardas rotuladas como “minorias problemáticas” por lutarem contra o racismo. Recomendo dar uma olhada em seu site para uma cronologia completa e lista de referências.
Finalmente, acho que nosso papel como nikkeis envolve olhar de maneira mais profunda para o nosso próprio racismo, agir de forma decisiva no combate às práticas racistas e, concomitantemente, fazer algo que talvez só nós como amarelos temos a capacidade de fazer que é desmantelar e/ou enfraquecer as relações que mantém vivas culturalmente o model minority myth, expondo a desvalorização velada de existências pretas e pardas que ela sustenta. Isso inclui desafiar visões romantizadas do Oriente e da cultura japonesa, até a divulgação de produções culturais que desafiam a nossa caracterização de “minoria modelo” (um pouco como faz a série Beef, e talvez até o escrachado Combini Confessions do Miyachi).
(Veja a seção “Extra #1” abaixo para orientações sobre como buscar ajuda caso acredite enfrentar uma situação envolvendo racismo no Japão).
E você? Escreva o que tem a dizer a respeito, estou genuinamente curiosa e disposta a desenvolver o meu pensamento em relação a essas temáticas.
宜しくお願い致します。
[Extra #1] O que fazer se você enfrentar racismo no Japão?
Não é incomum em minha clínica ouvir relatos de casos bastante severos de discriminação racial. Em consulta virtual, o Consulado Geral do Brasil em Tóquio me orientou a direcionar clientes para um serviço de orientação especializado em português. Embora o Japão não possua legislação específica voltada para o racismo, esses casos estariam sendo tratados como questões de direitos humanos. Deixo abaixo os dois recursos disponibilizados pelo Consulado (em português):
Espero que eles possam te ajudar!
[Extra #2] Conteúdos de Pessoas Negras no Japão (em Inglês e Japonês):
Separei esse espaço para recomendar alguns criadores de conteúdo negres no Japão. Peço desculpas pois a maioria das referências que conheço estão, infelizmente, em inglês ou japonês:
Yllah: faz vídeos abordando racismo no Japão e retratando como é ser PCD ou LGBTQIAPN+ lá. Um dos vídeos que mais gosto é o que reproduz (mais para fins de entretenimento) o “teste da boneca” (em que crianças precisam escolher qual dentre duas bonecas, uma com a cor mais clara e outra mais escura, preferem) com crianças japonesas.
JESSEOGN: fluente em japonês e inglês, ele faz vídeos sobre a comunidade hafu (filhos de japoneses e estrangeiros) no Japão. Um vídeo interessante compara as experiências de blasians (nikkeis negros) e wasians (nikkeis brancos).
GOLDNRUSH PODCAST: um podcast criado por dois irmãos bastante envolvidos com a comunidade hip hop no Japão. Várias entrevistas convidam rappers e outras figuras para falar um pouco da sua experiência crescendo por lá, um bom exemplo é esse corte, em que o convidado, EMMA, e o entrevistador, Isaac, falam sobre os comentários de japoneses na internet sobre o direito do uso da N-word (incluem pérolas como: “Já que você é hafu, só pode falar metade, até o NIG-”). Outro é esse short, em que os dois falam de suas experiências com bullying.
The Black Experience Japan: apresentado por Ranzo, o canal acompanha a vida e a experiência de negros no Japão. O conteúdo é majoritariamente em inglês, mas infelizmente os vídeos que vi não ofereciam legendas em português.
O que me chama muito a atenção dos três primeiros canais é como a questão do racismo é encarada com humor. Eu sinto um certo estranhamento quanto à isso. Entendo que o humor pode ser uma forma de tornar assuntos difíceis mais palatáveis, mas levando em conta o que aprendemos sobre piadas racistas no trabalho de Ribeiro, Santos & Vasconcelos (2023) apresentado anteriormente, fico me perguntando o quanto disso ainda não pode ser uma forma de minimizar algo que, na maior parte do Ocidente, é visto como sendo agressivo. Me pergunto se um entrevistador negro no Ocidente daria risada ao ouvir de um bêbado que “sua cara está suja, e eu quero que você a limpe”, e acho que isso mostra que o Japão ainda tem muito o que trilhar no sentido de encarar o seu próprio racismo.
Tem muitos outros canais que eu poderia indicar, como o AfroInJapan e o RichaadoTV, o conteúdo deles não é tão composto de entrevistas, e acho especialmente interessantes os vídeos do Richard por apresentarem uma visão um pouco mais ácida do racismo japonês.
Referências
Inventing the “Model Minority”: A Critical Timeline and Reading List. (2021, December 15). Densho. https://densho.org/catalyst/inventing-the-model-minority-a-critical-timeline-and-reading-list/
Nascimento, C. (2025). Terapia de Aceitação e Compromisso: Compreensão e Intervenções Possíveis Sobre o Racismo Internalizado. Perspectivas Em Análise Do Comportamento, 128–139. https://doi.org/10.18761/PAC.ACT.0244
Q&A with Professor Michael Sharpe on racism and immigration in Japan | Weatherhead East Asian Institute. (2024, May 17). Columbia.edu. https://weai.columbia.edu/news/qa-professor-michael-sharpe-racism-and-immigration-japan
Ribeiro, T. D., Santos, R. C. dos, & Vasconcelos Neto, A. de B. (2023). O impacto da piada racista na construção do self de pessoas negras. Perspectivas Em Análise Do Comportamento, 183–193. https://doi.org/10.18761/vecc191222
Shimoji, Y. L. (2023, February 7). Why Does Japanese Society Overlook Racism? Public Books. https://www.publicbooks.org/why-does-japanese-society-overlook-racism/
Yoshida, S. (2025). Japan and the Myth of “Ethnic Homogeneity”: Reflecting on Contemporary. Stanford.edu. https://fsi.stanford.edu/news/Japan-and-the-Myth-of-%E2%80%9CEthnic-Homogeneity%E2%80%9D-Reflecting-on-Contemporary-Challenges






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