"O Mapa Cultural" por Erin Meyer - Parte 2
- Ayumi Costa
- 3 de mar.
- 5 min de leitura

Em um mundo cada vez mais interconectado, estamos constantemente trabalhando, estudando e interagindo com pessoas de diferentes origens culturais. Essa exposição cria inúmeras oportunidades de colaboração e aprendizado, mas também pode gerar mal-entendidos se não soubermos reconhecer e nos adaptar a diferentes estilos de comunicação, expectativas e formas de pensar.
Erin Meyer, professora da INSEAD Business School, explora essas nuances em O Mapa Cultural, um livro que oferece um modelo estruturado para navegar pelas diferenças culturais em ambientes profissionais e sociais. Ao compreender essas dimensões, podemos nos comunicar de forma mais eficaz e evitar conflitos desnecessários.
Este texto abordará as quatro últimas dimensões analisadas no livro de Meyer: Decisão, Confiança, Desacordo e Pontualidade.
Decisão
Meyer inicia este capítulo destacando dois contrastes culturais surpreendentes: a Alemanha, uma cultura hierárquica que utiliza um processo de tomada de decisão baseado no consenso, e os Estados Unidos, um país de cultura igualitária, mas com um modelo de decisão de cima para baixo. Normalmente, culturas hierárquicas favorecem decisões centralizadas, enquanto culturas igualitárias tendem a preferir discussões colaborativas. No entanto, esses dois casos fogem dessa regra, o que frequentemente leva a mal-entendidos quando alemães e americanos trabalham juntos. Os americanos costumam perceber os alemães como lentos para tomar decisões e resistentes a mudanças, enquanto os alemães veem os americanos como inconsistentes e autoritários.
Para lidar com essas diferenças, Meyer propõe a distinção entre decisões “D maiúsculo” e “d minúsculo”. Uma decisão com d minúsculo é provisória, flexível e voltada para manter os processos em andamento, como preferem os americanos. Já uma decisão com D maiúsculo é definitiva, de longo prazo e resultado de extensas discussões, mais alinhada ao estilo alemão.
Os processos decisórios também variam de maneira única em outras culturas. No Japão, por exemplo, a hierarquia é combinada com a busca por consenso, mas o que diferencia sua expressão é o conceito de nemawashi. Esse termo refere-se ao processo de preparação de uma decisão por meio de discussões informais antes de qualquer acordo formal ser firmado. Assim, no contexto japonês, a fase mais importante para influenciar uma decisão acontece no início das discussões, e não na etapa final, quando todos já decidiram o que vai ser decidido formalmente.
Confiança
Um dos capítulos mais reveladores do livro trata da construção da confiança em diferentes culturas. Meyer faz uma distinção fundamental entre dois tipos de confiança: a baseada em tarefas e a baseada em relacionamentos. A confiança baseada em tarefas é construída por meio da competência, confiabilidade e entrega consistente de resultados. Já a confiança baseada em relacionamentos desenvolve-se por meio de conexões pessoais, experiências compartilhadas e laços construídos ao longo do tempo.
Os Estados Unidos e a Alemanha exemplificam culturas fortemente orientadas para a confiança baseada em tarefas, onde a credibilidade profissional é a base das relações de trabalho. Em contraste, países como Brasil, Rússia, Índia e China priorizam a confiança baseada em relacionamentos, exigindo uma conexão mais pessoal antes de fechar negócios. O Japão, por sua vez, adota um modelo híbrido. No ambiente de trabalho, a confiança é baseada em tarefas, mas eventos sociais, como encontros regados a bebidas, desempenham um papel essencial para que as pessoas expressem seu honne (sentimentos verdadeiros) sem repercussões profissionais.
Quando culturas opostas nesse espectro interagem, surgem desafios. Profissionais de culturas orientadas para tarefas podem sentir que a necessidade de construir relações pessoais antes dos negócios desperdiça tempo, enquanto aqueles que valorizam a confiança baseada em relacionamentos podem considerar seus colegas mais focados em tarefas como frios ou distantes.
Meyer também menciona a pesquisa de Fons Trompenaars e Charles Hampden-Turner para ilustrar uma abordagem interessante sobre como diferentes culturas constroem laços interpessoais, usando a metáfora da “pêssego vs. coco”. Culturas "pêssego", como a dos Estados Unidos, são macias e acolhedoras por fora—onde é comum engajar rapidamente em conversas informais e perguntas pessoais—mas possuem um núcleo mais rígido, pois verdadeiras amizades demoram a se formar. Em contrapartida, culturas "coco", como a Alemanha e Rússia, apresentam uma casca dura e impenetrável no início, mas, uma vez que a confiança é estabelecida, os relacionamentos tendem a ser profundos e duradouros.
Para mim, este capítulo foi especialmente esclarecedor sobre o Brasil. Durante muito tempo, achei que a prontidão dos brasileiros para expressar carinho e afeto um pouco estranha, pois minha experiência com a cultura japonesa me ensinou que esse tipo de gesto exige muito tempo e confiança para se desenvolver. No entanto, a abordagem de Meyer me ajudou a lembrar que o que importa não é a aparência externa do comportamento, mas sua função dentro do contexto cultural. Um casual “Te adoro, vamos tomar um café!” no Brasil pode ser interpretado da mesma forma que uma reverência respeitosa — ambos são expressões de boa vontade em seus respectivos ambientes culturais.
Desacordo
Um dos pontos mais surpreendentes abordados por Meyer é que a expressividade emocional e a aceitação do confronto nem sempre estão correlacionadas. Culturas nórdicas e germânicas, por exemplo, podem ser pouco expressivas emocionalmente, mas bastante diretas e apaixonadas em debates. Em contrapartida, culturas como a brasileira podem ser altamente expressivas, mas evitar o confronto direto.
Meyer explica que a aceitação do desacordo em uma cultura depende da expectativa de que os relacionamentos resistam aos conflitos. Em muitos países europeus, discordar das ideias de alguém pode ser visto como um sinal de respeito, pois demonstra que você valoriza o pensamento da outra pessoa o suficiente para debatê-lo. Por outro lado, muitas culturas asiáticas, influenciadas pelos ideais confucionistas de harmonia, evitam o confronto para preservar a coesão do grupo.
Para lidar com essas diferenças, Meyer sugere explicitar a intenção do debate. Se alguém vem de uma cultura mais direta, pode introduzir sua discordância dizendo: “Gostaria de fazer o papel de advogado do diabo para explorarmos a melhor solução juntos.” Para aquelas de culturas que priorizam a harmonia, suavizar o discurso com palavras como “talvez” ou “um pouco” pode tornar um ponto de vista mais aceitável. No entanto, ao adotar um estilo mais direto de confrontação, é necessário cuidado, pois a franqueza que é bem recebida em uma cultura pode ser percebida como agressividade em outra. Ela conta da história de um professor chinês seu colega que, ao tentar emular o estilo confrontativo de seus estudantes holandeses, acabou sendo mal avaliado por ser abrasivo demais.
Pontualidade
As culturas variam entre aquelas que são rígidas em relação ao tempo e aquelas que são mais flexíveis. Países como Alemanha, Estados Unidos e Japão valorizam pontualidade, estrutura e planejamento detalhado. Já lugares como Brasil, Índia e Nigéria adotam uma abordagem mais adaptável ao tempo, ajustando-se às circunstâncias conforme necessário.
Meyer ilustra essa diferença com a história de um gerente de RH nigeriano que teve dificuldades para coordenar reuniões com seus colegas alemães. Enquanto os alemães queriam agendar compromissos com seis meses de antecedência, os nigerianos não conseguiam confirmar disponibilidade tão cedo, pois feriados nacionais podiam ser decretados espontaneamente pelo governo.
Percepções sobre pontualidade também variam. Nos Estados Unidos, espera-se que reuniões comecem pontualmente, mas pequenos atrasos são toleráveis. No Brasil, chegar exatamente na hora pode ser considerado descortês, pois o anfitrião pode ainda estar se preparando. No Japão, duas pessoas que chegam cedo demais podem acabar se desculpando mutuamente por fazer a outra esperar.
Conclusão
A mensagem final de Meyer reforça que, embora sejamos todos humanos, nossas experiências culturais moldam nossas percepções de formas únicas. Embora a cultura tenha um impacto significativo na visão de mundo das pessoas, é sempre mais sábio não assumir que alguém se encaixa perfeitamente nos estereótipos culturais de seu país.
O verdadeiro benefício de compreender as diferenças culturais está na flexibilidade e na ampliação da perspectiva. Quem se aprofunda em outras culturas descobre que seu mundo se torna maior e menos limitado pela ilusão da mesmice. E, em um mundo cada vez mais globalizado, essa habilidade é mais valiosa do que nunca.
Referência:
MEYER, E. The Culture Map: Breaking Through the Invisible Boundaries of Global Business. Nova York: PublicAffairs, 2016.






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