O Estresse no Trabalho para Pessoas Altamente Qualificadas (HFWs)
- Ayumi Costa
- 27 de jan.
- 4 min de leitura
Atualizado: 30 de abr.

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Trabalhadores estrangeiros no Japão: o caso dos profissionais altamente qualificados
Nem todo trabalhador estrangeiro no Japão é dekassegui. Hoje, vamos falar sobre outro grupo que vem crescendo aos poucos: os profissionais altamente qualificados (high-skilled foreign workers, ou HFWs).
Esse aumento tem várias explicações, como o avanço do mercado de tecnologia, a globalização e iniciativas para atrair diversidade na força de trabalho. Um exemplo foi o projeto do MEXT (Ministério da Educação, Cultura, Esporte, Ciência e Tecnologia), que trouxe 300 mil estudantes estrangeiros para o Japão. A ideia era ajudar a enfrentar a crise populacional, e deu certo: em 2023, o número total de trabalhadores estrangeiros no país chegou a 2 milhões.
Assim como os dekasseguis, os HFWs enfrentam desafios importantes. Além do idioma, tem as diferenças culturais e sociais. Adaptação ao dia a dia, preconceito, solidão… Esses problemas podem impactar tanto a saúde mental quanto a física. Muitos relatam insegurança, tristeza e dificuldades para dormir, e alguns chegam até a receber diagnósticos como depressão ou transtorno de adaptação (適応障害, tekioshougai).
O que já se sabe sobre high-skilled foreign workers?
Segundo a literatura consultada, ter o apoio de amigos, família ou mesmo de colegas de trabalho pode ajudar muito quem está lidando com essas mudanças. Estudos mostram que o grau de adaptação cultural tem um papel importante na satisfação e no desempenho no trabalho. Um exemplo é uma pesquisa com trabalhadores filipinos nos Estados Unidos, que destacou a importância da adaptação para o bem-estar e a performance no ambiente laboral.
No caso do Japão, sabe-se que apenas 30% dos estudantes estrangeiros conseguem um emprego depois de formados, e que os HFWs têm 40% mais rotatividade no trabalho do que os japoneses. Fatores como o sistema de senioridade por tempo de serviço (年功序列, nenkoujouretsu) e diferenças na visão de carreira tornam as coisas ainda mais complicadas para eles. Além disso, o mercado de trabalho japonês vem passando por mudanças desde os anos 90, o que vem resultando em um clima com mais pressão para quem continua empregado.
Para os HFWs, os desafios de viver em um país estrangeiro, somados às exigências do trabalho, podem pesar. E como 95% desses trabalhadores vêm de países asiáticos, onde muitas vezes a busca por ajuda psicológica é vista como fraqueza, muitos podem acabar evitando procurar cuidado, o que agrava o problema.
O estudo: saúde mental e estresse entre HFWs
O estudo analisou as respostas de 276 trabalhadores (150 japoneses e 126 estrangeiros, majoritariamente asiáticos). O pesquisador utilizou dois instrumentos: o The Brief Job Stress Questionnaire (para medir estresse no trabalho) e o Mutual Intercultural Relations In Plural Societies Questionnaire (para avaliar relações interculturais).
Os resultados indicaram que os HFWs apresentaram maiores níveis de “carga qualitativa de trabalho” e “estresse interpessoal”, enquanto os trabalhadores japoneses relataram maior “carga quantitativa de trabalho” e “estresse ambiental”. Isso reflete achados de outros estudos, que sugerem que HFWs tendem a se preocupar mais com o desenvolvimento de suas carreiras e segurança no emprego, em comparação com o que poderia mudar no ambiente de trabalho.
Os HFWs também apresentaram níveis mais altos de sintomas depressivos e somáticos, mas, ao mesmo tempo, relataram maior satisfação com o trabalho e a vida familiar. Essa satisfação pode ser explicada pela alta qualificação desse grupo (cerca de 70% têm mestrado ou doutorado) e pela escolha consciente de ir ao Japão para se especializar. Mesmo assim, o autor chama atenção para o fato de que esse contentamento não protege contra os estresses interpessoais e os desafios de comunicação no trabalho, que continuam sendo uma realidade.
O papel do apoio social no trabalho
Como sabemos que o suporte social faz diferença em várias situações, e o autor também explorou isso com os participantes do estudo. Os HFWs disseram receber bastante apoio de familiares e amigos, mas o suporte dos chefes no trabalho teve resultados meio ambíguos. Em alguns casos, esse tipo de suporte acabou sendo associado a mais estresse interpessoal. O autor acredita que isso pode acontecer por conta de diferenças culturais na forma como esse tipo de apoio é interpretado.
Entre os trabalhadores japoneses, o estresse interpessoal no trabalho mostrou uma relação mais direta com reações de estresse, algo que já foi apontado em outros estudos: problemas nos relacionamentos no trabalho são o maior estressor para os nativos. Curiosamente, isso não apareceu entre os HFWs, o que levanta dúvidas sobre como eles percebem e lidam com esse tipo de situação.
E agora? Para além da pesquisa
Esse estudo foi publicado em 2015, mas ainda é muito relevante. No mesmo ano, o Japão começou a exigir checagens de estresse no trabalho (ストレスチェック), que em 2024 foram ampliadas para incluir empresas menores.
Dados recentes do Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar (厚生労働省, kouseiroudoushou) mostram que as compensações por problemas de saúde mental ligados ao trabalho atingiram um recorde em 2023: foram 883 casos, incluindo 73 suicídios.
Com a saúde mental ganhando mais atenção nos ambientes de trabalho, vale a pena refletir sobre a experiência de brasileiros nesse contexto. Embora os brasileiros em cargos altamente qualificados sejam minoria em comparação aos dekasseguis, é um tema que merece espaço. Se você tem alguma experiência ou impressão sobre esse assunto, por favor, compartilhe nos comentários!
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Referências
エデンレッドジャパン. 【社労士監修】ストレスチェック義務化の対象が拡大|概要から対応策まで解説. Disponível em: <https://edenred.jp/article/healthy-management/119/>. Acesso em: 22 jan. 2025.
「外国人雇用状況」の届出状況まとめ(令和5年10月末時点). Disponível em: <https://www.mhlw.go.jp/stf/newpage_37084.html>.
「留学生30万人計画」骨子の策定について:文部科学省. Disponível em: <https://www.mext.go.jp/a_menu/koutou/ryugaku/1420758.htm>.
健實,李. 日本における高度の技術・知識を持つ外国人労働者の
職業性ストレスとメンタルヘルス―日本人労働者との比較検討―. ストレス科学研究, v. 30, n. 0, p. 90–101, 2015.






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